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Londrina se esmera em punir casos de corrupção

Terça-feira 20 de Janeiro de 2015.

por Ligia Guimarães | De Londrina

O prefeito Alexandre Kireeff (PSD): sala de vidro para licitações transparentes

As últimas décadas foram turbulentas na vida política de Londrina, segunda maior cidade do Estado do Paraná. Seu nome veio à tona no noticiário político e policial como berço de personagens envolvidos em escândalos de corrupção. São de Londrina - ou construíram parte das suas carreiras lá - nomes como o do doleiro Alberto Youssef, preso na Operação Lava-Jato; André Vargas (PT), ex-deputado cassado; e José Janene, morto em 2010 e réu no processo do mensalão.

Em 2012, três pessoas ocuparam a cadeira de prefeito em menos de dois meses. Naquele ano, quando o prefeito Barbosa Neto (PDT) foi cassado, um dos substitutos interinos, o vice-prefeito José Joaquim Ribeiro (sem partido), fugiu e foi encontrado em um hotel em Santa Catarina após confessar ter recebido R$ 150 mil em propina em uma licitação de kits escolares para a rede municipal de ensino.

Nem a câmara de vereadores escapou de escândalos. Episódio conhecido como "mensalinho", em 2008, culminou no afastamento de oito vereadores denunciados em esquema de compra de votos.

Londrina ainda guarda boas lembranças da década de 50, época em que era considerada a capital nacional do café e uma das cidades mais ricas do país. Para especialistas, empresários e moradores entrevistados pelo Valor, o histórico de corrupção reflete a pobreza e a desigualdade herdadas a partir da década de 70, quando a riqueza do café se foi. O "boom" de desemprego e favelas favoreceu a ascensão de políticos populistas que mesmo após anos de atos ilícitos na prefeitura, seguirem no poder.

A reação popular, por outro lado, também é marcante na história local. A primeira cassação londrinense, em 2000, foi embalada pela pressão do movimento "Pé Vermelho, Mãos Limpas", composto por 87 entidades civis de diferentes perfis, incluindo o arcebispo da cidade. O nome faz alusão à cor da famosa terra da região, chamada de "rossa" (vermelho, em italiano") pelos imigrantes pioneiros.

A inédita parceria local entre o MP e a população foi premiada como iniciativa inovadora no combate à corrupção em 2001 pela Transparência Internacional. "Londrina é berço de corrupção, mas também de punição", diz Valter Orsi, presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) e um dos articuladores do movimento.

A opinião predominante é que Londrina é hoje mais vigilante que outras cidades. De lá para cá, ganhou uma série de mecanismos preventivos, como o Observatório de Gestão Pública de Londrina, órgão sem fins lucrativos e que monitora compras e gastos municipais. Também foi criado, por lei, o conselho municipal de transparência e controle social, um dos cinco primeiros do país.

Fundada em 1934 como um empreendimento loteado e vendido pela britânica Companhia de Terras Norte do Paraná, Londrina começou como uma área de 71 km2. Há opiniões divergentes sobre o papel da companhia: para alguns historiadores, a empresa ganhou de "mãos beijadas" terras extremamente férteis e lucrativas à margem esquerda do Rio Tibagi, sem gerar riqueza equivalente para o Estado.

Para outros, a atuação da companhia foi fundamental: o governo não tinha dinheiro para povoar as áreas desabitadas do Paraná, e oferecia terras em pagamento por obras públicas, como explica o jornalista e historiador Widson Schwartz, autor de livro sobre os 80 anos de Londrina.

O consenso, no entanto, é de que o método de colonização era eficiente. "O que explica Londrina e sua tendência cosmopolita é que a colonização foi muito bem feita. Gente do mundo inteiro chegava, plantava, dava certo; virou uma explosão", diz o escritor londrinense Domingos Pellegrini. Ele destaca que, nos primeiros cinco anos da cidade, havia representantes de 31 etnias diferentes em Londrina, entre italianos, japoneses, espanhóis e brasileiros. "Pessoas chegavam com economia feita no cabo da enxada, já sabiam lidar com café do oeste de São Paulo, que estava com as terras improdutivas, afirma Pellegrini. "Era uma empresa que honrava seus contratos e tinha um ousado plano de desenvolvimento regional", comenta Schwartz.

Na origem da cidade, a iniciativa privada sempre apareceu à frente do setor público. " O poder público demorou para chegar", diz o empresário Alexandre Fabian, diretor do Grupo Plaenge, construtora londrinense que atua em 19 Estados. Ele cita o exemplo da Sercomtel, companhia telefônica municipal, cuja criação, em 1964, foi paga por cotas antecipadas vendidas aos moradores, quando faltava oferta de linhas para a cidade. Veio também da reunião da iniciativa privada local o dinheiro para a construção da rodoviária e do jornal da cidade.

Londrina cresceu no ritmo da alta do café: de 1940 a 1955, o preço da saca exportada do grão saltou de US$ 7,94 para US$ 82, impulsionando o plantio de novas áreas. Viveu uma explosão demográfica e, apenas 20 anos depois de seu nascimento, acumulava estatísticas exuberantes. Em 1951, Londrina já tinha 50 mil habitantes, 14 bancos, 900 casas comerciais, além da quarta agência do Banco do Brasil em movimento do país.

O ciclo cafeeiro trazia também vida cultural e noturna pujantes para a cidadezinha. O empresário Raul Fulgêncio, que atua há 40 anos no mercado imobiliário, lembra do período de bonança. "Foi a primeira cidade do Brasil a ter cinema com ar condicionado e poltrona reclinável. Eu estava lá", diz Fulgêncio.

Pellegrini relembra histórias que dão ideia da agitação das casas noturnas da cidade, como a de um avião que,

às sextas-feiras, levava de São Paulo prostitutas e cantores famosos, como Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves e Luiz Gonzaga, para animar as festas dos fazendeiros da região.

Em 1972, quando tornou-se a terceira cidade do Sul do país em população, o ciclo de prosperidade do café já chegava perto do fim. As geadas começaram na década de 60 e culminaram na arrasadora "geada negra", de 1975, que limou do dia para a noite a monocultura que era a base da economia londrinense. "Lembro até hoje, nunca vi coisa tão feia. Pessoas choravam na rua", diz Raul Fulgêncio.

Junto com o desemprego e o desespero dos produtores, o que se viu foi uma grande quantidade de trabalhadores indo para a cidade em busca de emprego e formando as primeiras favelas. O estatuto do trabalhador rural, que entrou em vigor em 1964, também impulsionou as dispensas de boias-frias.

Tal realidade, somada ao expressivo volume de crédito concedido na gestão anterior para a cidade pelo Banco Nacional de Habitação (BNH) foi um "prato cheio" para que, pela primeira vez em sua história, Londrina tivesse um político de carreira como prefeito, em 1977. "Até então, os prefeitos tinham perfil empreendedor e geriam a cidade como se fossem suas empresas", diz Widson Schwartz.

Antonio Belinati (PP, ex-PDT, ex-PFL), cujo estilo de fazer política ganhou até termo próprio - o "belinatismo"-, criou naquele ano o conjunto habitacional que viria a ser, até hoje, seu reduto eleitoral: os Cinco Conjuntos, que atualmente têm cerca de 200 mil habitantes, quase metade da população. Em relação aos prefeitos anteriores, Belinati mudou o estilo de criar bairros: os cinco conjuntos nasceram afastados da cidade, sem planejamento ou infraestrutura.

Depois de Belinati, a história de Londrina passou a alternar entre dois ciclos: uma gestão de Belinati seguida, na eleição seguinte, de um "anti-Belinati", que representasse alternativa de mudança, em disputas acirradíssimas.

Foi assim que Londrina teve prefeitos do PT ainda nos anos 90, quando o partido não tinha tantas prefeituras e governos pelo país. Luiz Eduardo Cheida, em 1993, e mais tarde o sindicalista Nedson Micheletti, de 2001 a 2008. Esse é um dos fatores que explicam o grande número de londrinenses no governo federal: o ex-secretário-geral da Presidência da República Gilberto Carvalho foi um dos principais líderes do partido no Paraná, nos anos 80, e saiu da cidade para trabalhar com Lula em São Paulo no projeto de sua candidatura à Presidência, em 1989. A irmã de Carvalho, Márcia Lopes (PT), é ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do governo Dilma Rousseff - em 2010 - e disputou a Prefeitura de Londrina em 2012. O ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo integrou a primeira bancada federal do PT do Paraná, como deputado. Sua mulher, Gleisi Hoffmann, era secretária de administração do prefeito Nedson quando Lula foi eleito em 2002, e foi convocada para a equipe de transição.

Nas quatro vezes em que Belinati já foi eleito prefeito - na última foi impedido de assumir o cargo pelo Tribunal Superior Eleitoral -, o voto decisivo sempre veio dos Cinco Conjuntos. Até hoje, muitos moradores da região consideram "presentes" de Belinati as casas financiadas pelo BNH em prazos de 30 anos. É o caso da aposentada Ignês Cruciol, 65 anos, pioneira da região. "Devo minha vida a ele. Acho que é mentira que ele é corrupto", disse, ao lado da filha e da neta, ambas criadas nos arredores. Ignes estava desempregada após o fim das lavouras de café, há 34 anos, e morava de favor em uma chácara quando candidatou-se a uma casa nos Cinco Conjuntos.

Anos mais tarde, Ignes reafirmou seu apreço pelo ex-prefeito quando foi até a prefeitura pedir emprego. "Ele me atendeu de forma muito simpática e disse que, assim que abrisse vaga na escola municipal, ia me passar na frente na fila", diz Ignes, que conseguiu a vaga meses depois e se tornou professora até a aposentadoria. Tanto ela quanto a filha, Silvana Araújo, votaram no sobrinho de Belinati, Marcelo Belinati, nas últimas eleições, em 2012.

O segundo prefeito cassado de Londrina, Barbosa Neto, também ensaiou criar um reduto nos moldes dos Cinco Conjuntos antes de deixar o cargo. O bairro Vista Bela, com cerca de 3 mil casas populares do programa Minha Casa, Minha Vida, foi construído em 2012 em região afastada e segue até hoje sem infraestrutura básica.

Além do estilo carismático de atender às demandas de seus eleitores, o primeiro mandato de Belinati inaugurou, em Londrina, um novo estilo de gerenciar as finanças. Recorreu a empréstimos para retirar a linha férrea do centro da cidade. Sem crédito nos bancos de fomento, financiou as obras diretamente do caixa da prefeitura. Conta a história local que, ao ser o primeiro prefeito a assumir a prefeitura depois de Belinati, em 1983, Wilson Moreira encontrou apenas 49 centavos de cruzeiros no caixa, e dívida 3,3 vezes superior ao orçamento.

Além disso, por acordo de financiamento de Belinati, todo o dinheiro do Fundo de Participação dos Municípios e do ICMS ia diretamente para os credores. "Não existia lei de responsabilidade fiscal", lembra Schwartz, que calcula que cada mandato de Belinati atrasava dois anos de desenvolvimento da cidade, tempo que o próximo gestor levava só para colocar as contas em dia.

Situação similar vive o atual prefeito de Londrina, Alexandre Kireeff (PSD). Sua eleição, em 2012, é apontada como um retorno ao perfil de gestores pioneiros. Ex-presidente da Sociedade Rural do Paraná, de família empresária do ramo de bioenergia e agronegócios, entrou na disputa pela prefeitura com menos de 5% das intenções de voto. "Fiz uma candidatura sem cabo eleitoral, sem placa na rua, sem bandeira. A primeira vez que subi em um carro de som foi no dia em que eu ganhei", diz Kireeff, que custeou a própria campanha e recusou coligações com outros partidos.

Venceu no segundo turno, por 50,53% dos votos, o adversário Marcelo Belinati (PP) que, além de ser sobrinho do popular Antonio, representava uma coligação de 17 partidos, incluindo o PSDB.

Na visão da gestão atual, os episódios de corrupção atrasaram a cidade. Estudo da prefeitura aponta que Londrina perdeu fôlego em relação a um grupo de 14 cidades de porte similar em que, antes, parecia lidera, como a vizinha Maringá (PR), Uberlândia (MG), Sorocaba (SP) e Florianópolis (SC).

O ano de 2013, em que se estimava um déficit de R$ 70 milhões na prefeitura, foi dedicado a cortar gastos e refazer licitações irregulares. Na saúde, havia apenas uma ambulância com cerca de 1 milhão de quilômetros rodados e pneus carecas, segundo o prefeito. A Sercomtel também enfrentava dificuldades, com dívida de R$ 65 milhões e um pedido de aporte de capital de R$ 47 milhões. "Cheguei a fechar o restaurante popular para fazer a licitação correta. Do ponto de vista da avaliação pública, isso tem um custo político", diz Kireeff, muito ativo nas redes sociais e que divide a rotina na prefeitura em textos e "selfies" com seus quase 40 mil seguidores no Facebook.

Uma das medidas mais emblemáticas do esforço em reverter a imagem da prefeitura é a sala de vidro instalada na entrada do prédio para abrigar as licitações, transmitidas ao vivo pela internet. "Acho que Londrina já fez sua lição de casa e não tem mais espaço para retrocesso. Como alguém vai tomar medidas, no futuro, para deixar as contas menos transparentes ao público?", questiona.

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Esta é a primeira parte de uma reportagem especial sobre corrupção em Londrina

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Fonte: Valor Econômico

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